Empréstimo de defunto

Na década de 60 foi construído o quarto cemitério da Vila de Boim. Chamou-se São Cristovão em homenagem a um grande líder, trabalhador e honesto Simão Cristovão Rodrigues.

Para construí-lo fizeram grandes mutirões entre Boim as comunidades adjacentes e em pouco tempo estava pronto. Entretanto, como qualquer outra obra, precisava de uma inauguração que só poderia ser feita com enterro de uma pessoa.

Passaram-se longos três anos e ninguém morria. Só havia uma solução: emprestar um morto de outra localidade. Foram mandados então, cartas para diversos lugares relatando a urgência do caso.

A inauguração seria no domingo pela manhã. O defunto saiu de Aveiro na manhã de sábado, ainda fresquinho, em uma canoa trazida por dois homens. Aconteceu um empresvisto, havia uma festa dançante numa determinada comunidade e os viajantes ouvindo fogos e músicas animadas, resolveram parar apenas para dar uma “espiadinha”. Puxaram a canoa para a praia com o defunto dentro, embaixo de uma tolda de palha prevenindo das fortes chuvas de inverno. Chegando à festa entraram para dançar, bebendo até que ficaram pra lá de Baguidá.

Um bêbado estava deitado na praia dormindo quando caiu uma forte chuva, já de madrugada. Viu a canoa com a tolda e foi abrigar-se. Olhou a canoa e vendo o defunto deitado, falou:

- Parceiro, me dá um lugarzinho ai do teu lado? e foi deitando, o sono veio, dormindo pra valer. Os dois que estaba ainda na festa, decidiram continuar a viagem. Chegando à canoa, nem sequer olharam para certificarem se tudo estava normal. Colocando a canoa na água e partiram com destino a Boim.

Depois de viajarem por mais ou menos duas horas, o bêbado acordou e gemeu:

- Hum!, hum!

Os dois condutores da canoa se olharam e disseram:

- É ele!

Com medo pularam n’água. O bêbado que já estava recuperado da consciência, vendo os dois se distanciando da canoa, falou ao “parceiro”.

- E tu pra onde vais?

O espanto foi tão grande quando tocou no corpo estático e completamente frio. Conhecendo que era um morto, pulou no rio atrás dos dois. Estes que já estavam distante, olhando pra trás e com mais medo ainda, disseram:

- Lá vem ela! É alma penada.

A canoa com o defunto seguiu viagem sem direção. Ao amanhecer os três rapazes, disfizeram o drama na beira da praia. Acharam a canoa próximo a Vila de Boim.

Chegando com atraso para a inauguração. Assustado, ainda, relataram o acontecido aos parentes que riam pra valer. Por volta das dez horas da manhã seguinte aconteceu o enterro que foi o único e mais alegre até os dias de hoje. Quanto ao pagamento do empréstimo não se sabe se foi feito porque os que o fizeram já estão mortos e Aveiro parece ter esquecido. Vamos guardar!…

Jornal A Notícia, Vila de Boim

Ano 3 – 29ª edição

Repórter: Maickson Xavier

2 Respostas até o momento »

  1. 1

    Fábio Pena disse,

    Parabéns Maikson pela história ou estória, tanto faz, e pela qualidade do texto!

  2. 2

    dailon disse,

    Pow essa historia de boim eh legal…
    gosteiiii!!!


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